O encontro que prova que cuidar junto funciona: um registro do Simpósio Transdisciplinar de Aleitamento Materno
No dia 1º de agosto – dia mundial do aleitamento materno, o auditório do Recanto Canguru reuniu profissionais de saúde em torno de uma convicção: quando diferentes especialidades olham juntas, o cuidado melhora e a amamentação acontece.
No dia 1º de agosto de 2026, o auditório do Recanto Canguru ficou cheio de uma forma que vai além do número de cadeiras ocupadas.
Profissionais de diferentes especialidades, pediatras, fonoaudiólogas, odontopediatras, fisioterapeutas, osteopatas, nutricionistas, psicólogas, consultoras de amamentação, obstetras se reuniram para um dia inteiro de conversa sobre amamentação. Não cada uma no seu canto, mas juntas, em mesas redondas onde o formato já era, em si, uma declaração de princípio.
O Simpósio Transdisciplinar de Aleitamento Materno foi realizado pelo Recanto Canguru e pela AGACAM — Associação Gaúcha de Consultoras em Amamentação — alinhado ao tema da Semana Mundial do Aleitamento Materno 2026: Fortalecer o que funciona.
E o que funciona, o simpósio veio dizer com clareza, é o cuidado integrado.
Por que um simpósio transdisciplinar
A amamentação ainda é tratada, em muitos contextos, como um tema de uma única especialidade, mas qualquer profissional que atende famílias no puerpério sabe que não é assim. Uma dificuldade na pega pode ter origem na tensão muscular do bebê, no freio lingual, na produção de leite, na posição, na ansiedade da mãe ou em tudo isso ao mesmo tempo. Uma baixa produção pode estar relacionada à alimentação materna, ao funcionamento hormonal, à frequência das mamadas, ao estado emocional da mulher.
A amamentação não cabe em uma só área. E quando o suporte vem fragmentado, cada profissional olhando só para o seu pedaço, sem conversar com os outros quem paga o preço é a família.
O simpósio nasceu dessa convicção: que o encontro entre especialidades não é um luxo do cuidado. É o que o cuidado precisa ser.
O formato de mesas redondas não foi acidental. Cada bloco reuniu deliberadamente mais de uma especialidade: a proposta era construir, ao vivo, o olhar integrado que as famílias precisam encontrar no consultório.
O que o dia trouxe
Sete mesas, cada uma com seu tema, todas conectadas por um fio comum: o cuidado com a mulher que amamenta.
O dia começou pelo começo — o pré-natal à maternidade, e como pediatria, obstetrícia e consultoria de amamentação podem trabalhar juntas antes mesmo de o bebê nascer. Seguiu para o território das dificuldades mais frequentes: baixa produção, disfunções orais, distúrbios gastrointestinais funcionais — cada mesa mostrando, na prática, como o olhar conjunto muda o diagnóstico e a conduta.
A saúde mental materna teve seu espaço garantido — porque amamentação e estado emocional da mãe são inseparáveis, e porque nenhum suporte à amamentação é completo sem olhar para quem está amamentando. O processo do desmame, muitas vezes invisível nas discussões sobre aleitamento, foi tratado com a seriedade que merece.
E a última mesa do dia trouxe o tema que atravessa tudo: ética e responsabilidade no cuidado transdisciplinar. Encaminhamentos, devolutivas, o respeito ao olhar de cada profissional e, acima de tudo, o respeito à autonomia da mulher.
Mais profissionais nem sempre é melhor cuidado
Um dos pontos mais importantes do dia não foi sobre técnica, foi sobre postura.
Quando se fala em cuidado transdisciplinar, existe uma armadilha: a ideia de que quanto mais profissionais envolvidos, melhor, mas não é assim. Mais olhares só melhoram o cuidado quando esses olhares conversam entre si, quando as profissionais falam a mesma língua, compartilham informações, alinham condutas e, principalmente, escutam a mulher.
Uma família que recebe orientações contraditórias de diferentes profissionais não está sendo bem cuidada, mas sim, está sendo sobrecarregada. E uma mulher que sai de um atendimento sem entender o que está acontecendo com ela, sem ter sido ouvida, sem sentir que tem autonomia sobre suas próprias escolhas, não está sendo respeitada.
A ética no atendimento transdisciplinar começa aí: na escuta, na clareza, na honestidade sobre os limites do próprio olhar e no respeito genuíno à autonomia da mulher no seu processo de amamentação.
“As maiores dificuldades com a amamentação acontecem justamente no período mais desafiador para uma família em todos os demais sentidos envolvidos com a chegada de um filho, e por isso é um dos períodos de maior vulnerabilidade para a pessoa que amamenta. Não podemos nós sermos os responsáveis por maior angústia! Temos cada vez mais conhecimento para auxiliar, mas se essas avaliações não se complementam e se a informação não chega de forma clara, não vai acontecer um cuidado efetivo de verdade com o acolhimento que a fase exige. Aí se encontra a beleza e a importância da transdisciplinaridade.”
Eventos como esse existem porque o cuidado se fortalece quando quem cuida também se encontra.
Profissionais que passam o dia atendendo famílias, muitas vezes sozinhas, precisam de momentos para trocar, para aprender, para se reconhecer numa rede que acredita no mesmo cuidado. O simpósio foi isso: um espaço onde o que une é mais forte do que o que separa as especialidades.
Para o Recanto e para a AGACAM, realizar esse evento juntos foi também uma afirmação de que o fortalecimento do suporte à amamentação é um projeto coletivo. Que não é possível, nem desejável, fazer isso sozinho.
A Semana Mundial do Aleitamento Materno 2026 escolheu como tema Fortalecer o que funciona. O que funciona é o cuidado integrado. O que funciona é a rede. O que funciona é o encontro.
“Como enfermeira e vice-presidente da AGACAM nesta gestão, vejo o simpósio como resposta a uma necessidade urgente: sair da teoria e viver a transdisciplinaridade. Na minha prática diária, percebo que não basta termos conhecimento técnico isolado se não houver diálogo, pois a amamentação não se sustenta sozinha. O que construímos neste evento foi um compromisso real com a transdisciplinaridade. Eu não acredito em um cuidado que fragmenta a mãe ou que a sobrecarrega com informações contraditórias. O que funciona, e o que fizemos aqui, foi fortalecer o cuidado que olha para o todo, onde todas as especialidades andam de mãos dadas, sempre em prol do binômio. O cuidado efetivo é aquele em que nós profissionais, nos conectamos para cercar a mulher de suporte, garantindo que ela seja protagonista do seu próprio processo. Que alegria ter feito parte desta construção. Que venham as próximas edições!”
O simpósio acabou. Mas o que foi construído ali continua: no cuidado de cada profissional que esteve presente, nas conversas que começaram naquele auditório e vão seguir, nas famílias que vão receber um atendimento mais completo porque esse dia aconteceu.
Foi lindo ver essa sala cheia. E estamos apenas começando.
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